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Vida de cão

09 janeiro

Há uns tempos publiquei um artigo no meu blogue sorridente, que falava sobre o que muda na nossa vida quando adoptamos um cão. 

Com alguma dose de humor e boa disposição, o meu objectivo foi proporcionar um ponto de vista mais realista, oposto ao lugar-comum a que somos habituados desde crianças. O de que o cão é o melhor amigo do homem, de que os cachorrinhos são muito fofinhos e de que os cães são todos uns amores. A meu ver, estas (in)verdades são a causa de muito abandono que acontece por aí. As pessoas vão na sua boa fé adoptar um animal e bastam alguns dias para perceberem que cometeram um erro crasso e que foram enganadas. Por quem? Pelo mundo, ora pois claro!

Quem estiver para aí virado, pode perder uns minutinhos a ler o artigo de que falo. Spoiler alert: está escrito em inglês.

Nessa publicação, não escrevi nem metade do que queria. O assunto dá pano para mangas - talvez crie outro blogue dedicado exclusivamente à minha "vida de cão", quem sabe?

Este é um assunto que me preocupa e, já depois da publicação desse artigo, pude comprovar a minha teoria, em primeira mão.

Nos dias antecedentes à adopção do meu cachorrinho, estive muito ansiosa. Mas vou começar do início. Shall we? (desculpem: vícios do outro blogue)

Tinha 13 anos quando o Kowi entrou na minha vida. O Kowi era um cachorro brincalhão e travesso. Foi encontrado na rua por uma amiga minha que me perguntou se eu o queria. Não podia ficar com ele e garantiu que o pequeno não ia crescer muito. Depois de muito implorar, a minha mãe cedeu à minha vontade e o Kowi foi lá para casa. Na altura éramos dois adultos, duas crianças e um cão numa casa velha de duas assoalhadas. Adivinhava-se um desastre, mas vivíamos num rés-do-chão e tínhamos uma varanda grande, uma espécie de quintal e muito amor para dar.

Durante os primeiros tempos, correu bem. O Kowi recebeu todos os cuidados necessários: caminha, vacinas, colinho e muita brincadeira. Aos fins-de-semana começou a ir connosco para casa do meu pai. O Kowi cresceu. Ficou enorme, ao contrário do que tinha sido garantido à minha mãe. Portava-se mal, claro, e começou a destruir tudo o que tínhamos  - que, por sinal, não era muito. Eventualmente, a minha mãe decidiu dá-lo, pediu ajuda a um amigo e o Kowi foi para uma família que tinha uma quinta - pelo menos, é a história que me contam.

A separação foi muito difícil e penso muito no Kowi, até hoje, mais de dez anos depois. Onde é que estará? Será que está vivo? Será que foi bem tratado? Será que se lembra de nós? Será que o vou voltar a ver? A resposta a esta última pergunta é dolorosamente óbvia.

O desejo de ter um cão nunca se desvaneceu e desde que comecei a trabalhar e, principalmente, desde que saí de casa da minha mãe, foi crescendo e transformando-se num objectivo, mais do que apenas um sonho.

Nós temos um gato, o Peri. Ele não é muito sociável, é um pouco desconfiado (já vos disse que é um gato?) e ter um cão iria mexer com os hábitos dele, com a atenção que recebe e tudo o mais, pelo que o tive sempre em mente, na altura de decidir que tipo de cão queria.

Agora, quero deixar isto bem claro: adoptar um animal, seja ele qual for, não é uma decisão que deva ser tomada de ânimo leve. Passei meses a reflectir acerca do assunto. Tive que falar com as pessoas que vivem comigo, para garantir que todos aceitavam esta minha ideia e, muito importante, passei por um processo de introspecção em que tentei perceber as razões pelas quais queria um cão. Se era algo que eu desejava a longo prazo, se não era apenas um capricho e de que forma ia afectar a minha vida.

Desde o início que tinha uma coisa muito clara na minha cabeça: queria adoptar. Ajudar um animal que realmente precisasse de uma casa, de uma família. Depois, preferia ficar com um cão adulto, menos adoptável, mas o Peri era a minha prioridade e achei melhor procurar um cachorro, que crescesse com ele, que o visse como um membro da família e, portanto, que nunca o atacasse (chamem-me paranóica, vá). Quis um cão de porte pequeno ou médio, também por causa do Peri e porque vivemos num apartamento e, por último, dei preferência a um cão de pêlo curto. 

A decisão estava tomada e foi nessa altura que o meu cachorrinho entrou na minha vida.

Assim que vi a fotografia dele pela primeira vez, juntamente com as de dois manos da mesma ninhada, na página da Casa Amarela - uma instituição que ajuda os animais entregues no Canil Municipal da Moita, e não só -, pensei: "É ele. É o meu cão!". Pouco sabia sobre ele, apenas que era de porte médio e que tinha sido deixado no canil, mas foi amor à primeira vista. Contactei a página e decidi ir ao canil, sem qualquer garantia de que ele lá estivesse à minha espera.

A fotografia publicada pela Casa Amarela

Passei a semana ansiosa, desejosa de ir buscar o meu cão, fosse ele o pequeno que tinha visto na fotografia ou outro que também precisasse de ajuda. Tive também medo de não conseguir lidar com o que aí vinha mas segui em frente. O meu namorado foi comigo e quando lá chegámos, estava uma das crias a ser adoptada. Fiquei com o coração apertado, com receio que ele também já tivesse sido levado.

Mas não. Lá estava o meu cão. Numa divisão fria, com grades e chão de pedra, encolhido a um canto com a irmã, rodeados de dejectos. À volta, muito barulho, com cães adultos a ladrar por atenção. Olhos tristes por todo o lado. Acredito que muita gente não tenha a noção da tristeza imensa que é a vida num canil. 
O tratador disse-me de que tamanho iam ficar os dois cachorros e foi também nesse momento que soube que ele era um macho. Foi muito rápido. O tratador pegou no cãozinho e perguntou: "Então? Vai levá-lo ou não?".
Eu troquei um olhar com o meu namorado, que estava completamente rendido, olhei de novo para o cachorro assustado, disse que sim e o tratador passou-mo, de imediato, para o colo. Foram poucos os momentos na minha vida em que tive vontade de chorar de tanta felicidade. Este foi um deles. 

O Balu ganhou um nome nessa tarde. Ganhou amigos, uma família, saúde e uma cama quentinha. Até hoje, não o voltei a ver com o ar assustado com que o vi naquele dia, em que encostou a cabeça ao meu peito, como se se quisesse esconder.

Os primeiros dias, com 2 meses


Lembram-se da mana dele? A que foi adoptada no mesmo dia? É por ela que escrevo esta publicação, hoje.

A Kika, nome dado pelo casal que ficou com ela na altura, foi devolvida ao canil, pouco tempo depois. Confesso que foi um desfecho que previ. Era visível a inconsciência daquelas pessoas, a falta de cuidado com a cadelinha e também de noção do que os cães passam no canil. Tinham, ainda, a pior razão possível para adoptarem a pequena: era para o filho. O que nem seria assim tão grave, não fosse o menino um bebé com menos de 1 ano.

A mana do Balu teve sorte e foi adoptada de novo, desta vez por uma senhora responsável e consciente que lhe deu um nome bem mais bonito: Ishi. Quis o acaso que nos encontrássemos online e neste momento vamos acompanhando o crescimento dos dois manos. Enormes, os dois. Felizes e saudáveis, também.

Agora, com 6 meses

Muitos não têm a mesma sorte. Acredito que este seja o resultado de muitas das adopções que acontecem neste país: a devolução. Basta pensarmos na curta entrevista de que fui alvo: "vai levá-lo ou não?". Vejo muitas publicações de instituições que procuram donos para os seus animais e, por mais que as intenções sejam boas, a maneira como promovem estes cães e gatos não é um reflexo da realidade, mas sim do desespero. Falam dos olhos doces, dos mimos e das brincadeiras. Mas não dizem que o Lucky gosta de roer, que a Kiara morde as pessoas durante as brincadeiras e que o Milu arranha os cortinados. As pessoas têm de conhecer este lado, também. Têm de se consciencializar que ter um animal, principalmente nos primeiros tempos, não é pêra doce.

Eu perdi a calma com o Balu, muitas vezes. Cheguei a questionar a minha decisão, apesar de nunca colocar a hipótese de voltar atrás. Eu gritei com o Balu e levei as mãos à cabeça, mesmo depois de ler que nunca devemos gritar com um cão. É como com as crianças. Nós sabemos o que não devemos fazer, mas qual é o pai que nunca respondeu com o belo do "Porque não!", ou que nunca gritou com um filho ou que nunca deu uma palmada na fralda? 

Pois!

Não é fácil. Quando trazemos os animais para casa, salvo algumas excepções, eles não vêm domesticados. E nós também não. Eles têm de se habituar a nós e vice-versa. No início, ainda não são família, são um elemento estranho e, sim, eles crescem, MUITO e muito depressa. Eles roem, eles mordem, eles ladram como se o mundo fosse acabar. O Balu até já uivou, só para nos relembrar de que, sim, é filho de lobos. Eles sujam tudo e, sim, têm de ir à rua todos os dias, faça chuva ou faça sol. Quem não está disposto a abdicar daqueles dias passados em casa, de pijama, não pense sequer em ter um cão porque ele vai ter de ir à rua todos os dias. Não só por causa das necessidades mas porque eles precisam de passear, de cheirar, de conhecer outros cães e outras pessoas. Caso contrário, estão a maltratar o animal, ponto final - e nem venham com a treta do "ai, mas eu tenho um quintal".

Como disse, este assunto tem pano para mangas. Mas por agora, fico por aqui. Queria partilhar a história do Balu e das suas manas. Não sei qual foi o destino da pequena que estava aconchegada com ele, mas penso muito nisso. Qualquer um dos três era facilmente adoptável, já que eram bebés e, claro, muito amorosos. O problema é que qualquer um dos três sofria também uma probabilidade muito alta de ser devolvido. Basta verem o tamanho que o Balu tem agora, com apenas 6 meses.

Adoptem. Mas adoptem com consciência e com amor, por favor. Os animais não são objectos e apaixonam-se pelas famílias que os acolhem. Sim, os gatos também, mas isso fica para outro dia.




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Até à próxima!


Update (09/04/2015): soube, esta semana, que o irmão do Balu foi adoptado no mesmo dia. A má notícia: foi devolvido ao canil, há dois meses. Sim, a "mana" que estava com ele na jaula - afinal é macho, o tratador enganou-se, na altura.
O mais triste é que não fiquei surpreendida. Volto a dizer, situações como esta são comuns. Por favor, por favor, pensem muito bem antes de levarem um cachorro para casa. Não me canso de dizer: eles crescem muito, não ficam cachorrinhos fofinhos para sempre e, enquanto cachorros, portam-se MUITO mal.


2 comments

  1. Dora Carvalho21/02/15, 01:50

    Amei o artigo, apesar da lágrima no olho. Obrigada

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    1. Oh, Dora :) só agora é que vi o comentário <3

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